A olho nu – Vik Muniz
“A vida é um constante ato de equilíbrio entre a ilusão e a realidade”.
- Harry Houdini.
Maior retrospectiva já realizada sobre a obra de Vik Muniz, artista brasileiro de referência internacional reconhecido por investigar os limites entre imagem, matéria e percepção. A exposição reúne trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, oferecendo um panorama abrangente de mais de três décadas de contribuição à arte contemporânea.
Ao articular processos, materiais e escalas distintas, a mostra evidencia a complexidade poética e conceitual de uma obra que tensiona os modos de ver, representar e compreender as imagens no mundo contemporâneo. “Vik Muniz – A olho nu” oferece uma experiência que combina impacto imediato e reflexão crítica, reafirmando o lugar do artista como um dos principais mediadores entre arte contemporânea, percepção visual e cultura compartilhada.
A visão é um dom. Embora o olho seja o veículo visionário primordial, é no cérebro que as imagens ganham significado. Enxergamos o possível de acordo com nossas afinidades, capacidades e limitações — e não necessariamente o que de fato é, ou o que os outros estão vendo ou desejam mostrar. A realidade enxergada é uma inevitável ilusão de ótica pessoal, que cada um compreende e interpreta à sua maneira.
A ilusão de ótica é um fenômeno que pode ser fisiológico, cognitivo ou literal, sendo amplamente utilizada por artistas — como no trompe l’œil, onde a visão é “confundida” de maneira engenhosa. O que vemos não é exatamente o que é, mas torna-se real a partir do momento em que o identificamos como tal. Um reconhecimento que é sempre fruto da imaginação combinado com referências adquiridas e uma aceitação daquela realidade.
Vik Muniz é um ilusionista — um mágico na construção de imagens que não existem, mas que se tornam reais. Suas obras possuem camadas que tensionam diferentes questões de cunho poético — aspectos formais e processuais — e político, abordagens e relações que estabelece com o sistema da arte.
A exposição A olho nu – Vik Muniz propõe um passeio pela produção do artista, desde suas obras tridimensionais, criadas antes do uso da câmera fotográfica, até suas séries de fotos mais conhecidas e as mais recentes. O recorte apresentado inclui esculturas, objetos e mais de uma centena de fotografias nas quais deslocamento de funções e reconfigurações de objetos do mundo estão evidentes e servem como fio condutor da seleção.
Esse conjunto aproxima a produção de Vik do universo (pop)ular, tão presente e recorrente na cultura nordestina — seja pela utilização de elementos do cotidiano, pela forma como os organiza ou pelas imagens que produz. Uma amálgama de temas, cores e materiais que pode ser observada em feiras livres, nas ruas e calçadas, nos bairros e festas populares, nas gambiarras, nos f ilmes da televisão, na liberdade das composições e na imaginativa criatividade do povo nordestino.
As obras dialogam com essas camadas do cotidiano, atravessando os espectadores por meio de um encantamento visual e um deslumbramento processual que despertam distintas interpretações cognitivas e sentimentos de afetividade e pertencimento. Trata-se, na verdade, da ativação da cosa mentale, mencionada por Marcel Duchamp — uma ideia que é formalizada por um suporte que se torna meio. No caso de Vik, os objetos do mundo e a fotografia.
Estamos vendo chocolate ou caviar? Jackson Pollock ou Che Guevara? Uma fotografia? Uma escultura de comida? Tudo que vemos se transforma e transmuta diante de nossos olhos.
Vik é um fotógrafo agricultor, um jardineiro que utiliza sementes diversas — açúcar, chocolate, caviar, diamantes, brinquedos de plástico, revistas, cartões-postais e até mesmo resíduos — que florescem em potentes imagens, re-retratando aquilo que parece já termos visto. Um déjà vu de forma e conteúdo: reconhecemos a figura retratada, assim como os materiais com os quais ela foi concebida, mas algo parece fora do lugar. Isso captura nosso olhar e ativa nossa mente. O termo “fotógrafo agricultor” foi cunhado por Jeff Wall, em contraposição à expressão “fotógrafo caçador”, designada por Ansel Adams.
O fotógrafo caçador é aquele que utiliza a câmera como uma espingarda, em busca da imagem perfeita, do momento mágico que ocorre ao seu redor — e que se estende ao fotojornalismo, à fotografia esportiva, de natureza, do cotidiano. O agricultor, por sua vez, constrói as imagens antes de executá-las — pensa, desenha, rabisca, testa, repete — e utiliza a máquina fotográfica para registrar uma composição previamente elaborada. Sem dúvida, Vik se tornou um dos principais fotógrafos agricultores da atualidade, seja por sua projeção internacional, seja pela longevidade de sua prática e pelas inúmeras séries que realizou.
Sua inspiração surgiu do avesso — da análise de fotografias feitas por outros de seus objetos tridimensionais da série Relicários (1989-2025), aqui apresentados. Ângulos errados, enquadramentos insatisfatórios e iluminações inadequadas, mas, ao mesmo tempo, transformações imagéticas provocadas pelo congelamento daquelas perspectivas, despertaram no artista a percepção das ausências e potências da linguagem fotográfica. Assim, decidiu assumir os registros de suas próprias criações — que passaram a ser as próprias obras — no avesso do avesso, dando nova torção ao seu assunto principal.
Na exposição A olho nu, exploramos seus processos e caminhos por meio de um mergulho cronológico que lança luz sobre a criação de um artista cuja genialidade está explícita na rigorosa simplicidade que orquestra ao longo de sua robusta trajetória. Vik vem construindo um panteão pictórico no qual os deslocamentos — de iconografias, materiais, técnicas, suportes e linguagens — são procedimentos centrais. Um transmutar de funções originais que torna o espectador cúmplice de um fazer artístico que nos captura como na mágica, pois conforme afirmou Houdini “a magia não reside nos truques que realizo, mas sim na capacidade de assombrar e maravilhar as pessoas”.
Um surrealismo fantástico e inventivo que coloca nossa própria realidade em xeque, sendo desafiada pela realidade poética criada pelo artista — uma poética que provoca encantamentos e questionamentos. Afinal, estamos vendo a Medusa? Ou apenas sobras de espaguete em um prato fundo? Serão as duas coisas, ou uma criação do acaso minuciosamente pensada? Para enxergarmos a poética que Vik propõe, precisamos nos despir de uma visão tradicional — e deixar nosso olho nu.
Daniel Rangel – Curador
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